Uma das dúvidas mais comuns quando se fala em prancha de comunicação é: se a criança conseguir pedir apontando para uma figura, ela vai deixar de tentar falar? Esse receio faz muitas famílias e escolas adiarem o uso da comunicação alternativa, às vezes por anos.
A boa notícia é que essa pergunta já foi estudada. Neste artigo, reunimos o que as principais revisões científicas e a associação americana de fonoaudiologia dizem sobre o tema, e mostramos como dar os primeiros passos com a prancha na sala de aula.
O que é comunicação aumentativa e alternativa
A comunicação aumentativa e alternativa (CAA) reúne recursos que complementam ou substituem a fala: pranchas com figuras, cartões de troca, livros de comunicação e aplicativos com voz. O objetivo é que a pessoa consiga se expressar enquanto a fala não é suficiente, ou quando ela não é o melhor caminho.
Na revisão do NCAEP publicada por Hume e colegas em 2021, a CAA passou a integrar a lista de práticas baseadas em evidências para autismo. O resumo do AFIRM sobre o tema informa que ela foi sustentada por 47 estudos de caso único, com crianças e jovens de 0 a 18 anos.
A prancha atrapalha a fala? O que as pesquisas mostram
A American Speech-Language-Hearing Association (ASHA), principal entidade de fonoaudiologia dos Estados Unidos, afirma em seu portal de prática profissional que o uso da CAA não reduz a motivação para usar a fala e pode até favorecer a fala natural. A ASHA também afirma que não existem pré-requisitos para começar a usar a CAA.
Uma revisão de Millar, Light e Schlosser, publicada em 2006 no Journal of Speech, Language, and Hearing Research, analisou 23 estudos com pessoas com deficiências do desenvolvimento. Entre os 6 estudos com melhor controle experimental, 5 mostraram aumento da fala e nenhum mostrou piora.
Uma revisão sistemática de Schlosser e Wendt, de 2008, focada em crianças autistas, chegou a uma conclusão semelhante: a CAA não prejudicou a produção de fala e pode aumentá-la. Os autores ressaltam que os ganhos de fala costumam ser pequenos e variam de criança para criança.
Como começar a usar a prancha na escola
1. Comece pelas necessidades reais. Água, banheiro, ajuda, pausa e não quero costumam ser os primeiros pedidos que fazem diferença no dia a dia.
2. Deixe a prancha sempre acessível. Ela precisa estar com a criança ou ao alcance dela, não guardada na mochila.
3. Use a prancha você também. Aponte as figuras enquanto fala com a criança. Ela aprende vendo o adulto usar.
4. Responda a cada pedido. Quando a criança aponta água, a água precisa chegar. É assim que ela entende que a prancha funciona.
5. Converse com a equipe e a família. O ideal é que a fonoaudióloga da criança oriente o vocabulário e que a mesma prancha seja usada em casa e na escola.
Dica da sala de aula: Fale a palavra em voz alta sempre que a criança apontar uma figura. Esse modelo de fala junto com a imagem é uma forma natural de estimular a comunicação oral sem pressão.
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Conclusão
As evidências disponíveis indicam que a comunicação alternativa não impede a fala e pode abrir caminho para ela. Mais importante ainda, ela dá à criança um meio de ser entendida agora, sem esperar. Começar com poucas figuras, sempre acessíveis e sempre respondidas, já faz diferença no dia a dia da escola.
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Perguntas frequentes
A criança precisa ter alguma habilidade antes de usar a prancha?
Segundo a ASHA, não há pré-requisitos para usar a comunicação alternativa. O vocabulário e o formato podem ser adaptados a cada criança.
A prancha substitui a fonoaudiologia?
Não. A prancha é uma ferramenta de apoio. O acompanhamento com fonoaudiólogo continua sendo importante para definir o vocabulário e os objetivos de cada criança.
Referências
- American Speech-Language-Hearing Association. Augmentative and Alternative Communication (Practice Portal). https://www.asha.org/practice-portal/professional-issues/augmentative-and-alternative-communication/
- Millar, D. C., Light, J. C., & Schlosser, R. W. (2006). The impact of augmentative and alternative communication intervention on the speech production of individuals with developmental disabilities: a research review. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 49, 248-264. https://doi.org/10.1044/1092-4388(2006/021)
- Schlosser, R. W., & Wendt, O. (2008). Effects of augmentative and alternative communication intervention on speech production in children with autism: a systematic review. American Journal of Speech-Language Pathology, 17(3), 212-230. Resumo no ASHA Evidence Maps. https://apps.asha.org/EvidenceMaps/Articles/ArticleSummary/ef378226-07c0-48f4-8ba1-3bd0161d57c4
- Nowell, S., Sam, A., Waters, V., Dees, R., & AFIRM Team (2022). Augmentative and Alternative Communication: Brief Packet. FPG Child Development Institute, University of North Carolina. https://afirm.fpg.unc.edu/wp-content/uploads/Augmentative-Alternative-Communication-Brief-Packet-Nowell-et-al-2022.pdf
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de profissionais de saúde e de educação.
