O sinal do recreio tocou, a sala ficou barulhenta e, em poucos minutos, a criança tapou os ouvidos, começou a chorar e não conseguiu mais participar. Para quem observa de fora, o motivo pode parecer pequeno. Para a criança, o ambiente ficou insuportável.
Diferenças no processamento sensorial fazem parte do autismo e são reconhecidas nos critérios de diagnóstico. Neste artigo, você vai entender o que as fontes de referência dizem sobre o tema e quais mudanças simples no ambiente da sala podem prevenir boa parte das crises.
Sensibilidade sensorial faz parte do autismo
O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), agência de saúde pública dos Estados Unidos, descreve os critérios do DSM-5 para o diagnóstico de autismo. Um deles é a hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais, como reação intensa a determinados sons ou texturas, ou aparente indiferença à dor e à temperatura.
Uma meta-análise de Ben-Sasson e colegas, publicada em 2019 no Journal of Autism and Developmental Disorders, reuniu 55 estudos com 4.606 pessoas autistas. Os autores encontraram diferenças grandes em relação a pessoas com desenvolvimento típico em três aspectos: hiper-responsividade, hiporresponsividade e busca sensorial.
O que as diretrizes recomendam para o ambiente
O National Institute for Health and Care Excellence (NICE), órgão do sistema de saúde do Reino Unido, publicou a diretriz CG170 sobre apoio a crianças e jovens autistas. Ela recomenda considerar as sensibilidades sensoriais individuais a iluminação, nível de ruído e cor das paredes.
A mesma diretriz aponta iluminação e ruído como possíveis gatilhos de comportamentos desafiadores e recomenda adaptar o ambiente físico. Ou seja: antes de pensar em como reagir à crise, vale olhar para o que no ambiente pode estar provocando o desconforto.
Adaptações simples para a sala de aula
Observe os gatilhos. Anote quando as crises acontecem: horário, atividade, barulho, luz. Padrões costumam aparecer em poucos dias.
Reduza o ruído. Feltros nos pés das cadeiras, avisos antes de sinais sonoros e abafadores de ruído disponíveis ajudam muito.
Cuide da iluminação e das paredes. Evite luz piscando e paredes muito carregadas de cartazes, principalmente perto da mesa da criança.
Crie um cantinho da calma. Um espaço tranquilo, com poucos estímulos, onde a criança possa ir quando precisar, sempre combinado antes.
Ensine a pedir pausa. Um cartão de pausa ou o termômetro das emoções permite que a criança avise antes de chegar ao limite.
Dica da sala de aula: Posicione a mesa da criança longe da porta e da janela que dá para o corredor. Só essa mudança costuma reduzir bastante o barulho e o movimento que ela precisa filtrar.
O que fazer durante a crise
- Reduza a fala ao mínimo e mantenha a voz calma.
- Diminua os estímulos: afaste a turma, apague luzes fortes se possível.
- Garanta a segurança da criança e dos colegas.
- Converse sobre o que aconteceu só depois, quando ela estiver calma.
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Conclusão
A sensibilidade sensorial faz parte do autismo e não é uma escolha da criança. Pequenas mudanças no ambiente, como reduzir o ruído, cuidar da iluminação e oferecer um lugar para pausa, costumam prevenir boa parte das crises e tornam a sala mais confortável para todos.
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Perguntas frequentes
Crise sensorial é a mesma coisa que birra?
Não. A birra costuma ter um objetivo e cessar quando ele é alcançado. A crise por sobrecarga sensorial acontece quando a criança não consegue mais lidar com os estímulos, mesmo que queira.
Abafador de ruído atrapalha a adaptação?
O abafador é uma ferramenta de apoio que ajuda a criança a permanecer no ambiente. O uso deve ser combinado com a família e com os profissionais que acompanham a criança.
Referências
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Clinical Testing and Diagnosis for Autism Spectrum Disorder. https://www.cdc.gov/autism/hcp/diagnosis/
- Ben-Sasson, A., Gal, E., Fluss, R., Katz-Zetler, N., & Cermak, S. A. (2019). Update of a Meta-analysis of Sensory Symptoms in ASD: A New Decade of Research. Journal of Autism and Developmental Disorders, 49(12), 4974-4996. https://doi.org/10.1007/s10803-019-04180-0
- National Institute for Health and Care Excellence (2013). Autism spectrum disorder in under 19s: support and management (CG170). Recommendations. https://www.nice.org.uk/guidance/cg170/chapter/Recommendations
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de profissionais de saúde e de educação.
