Guardar o brinquedo para ir ao lanche, sair do parque para voltar à sala, parar o desenho para começar a leitura. Para muitas crianças autistas, cada uma dessas trocas exige um esforço grande, e é justamente nesses momentos que aparecem choro, recusa ou crises.
O quadro primeiro e depois é uma forma simples de antecipar a mudança. Ele mostra, em duas imagens, o que acontece agora e o que vem a seguir. Neste artigo, você vai ver por que ele funciona e como usá-lo de um jeito que realmente ajude.
Por que as transições são tão difíceis
Uma transição exige que a criança interrompa algo, entenda o que vem depois e aceite a mudança. Quando a informação chega só pela fala, e às vezes de forma rápida, muitas crianças autistas não conseguem processar tudo a tempo.
Os apoios visuais resolvem parte desse problema porque a informação fica disponível pelo tempo que a criança precisar. Ela pode olhar de novo, confirmar e se preparar.
O que a pesquisa mostra
O quadro primeiro e depois é um tipo de agenda visual reduzida a dois passos. Segundo o material do AFIRM, da Universidade da Carolina do Norte, ele mostra dois eventos em ordem para que a criança saiba o que vem em seguida.
Ele também se encaixa no que a literatura chama de intervenções baseadas em antecedentes: mudanças feitas antes do momento difícil para evitar que o comportamento aconteça. O AFIRM informa que essa prática foi sustentada por 47 estudos de caso único e 2 estudos de grupo na revisão do NCAEP, e cita agendas visuais, temporizadores visuais e avisos antes da troca de atividade como exemplos.
Um estudo clássico de Dettmer e colegas, publicado em 2000, acompanhou dois meninos autistas do ensino fundamental e observou uma redução significativa do tempo entre a instrução e o início da nova atividade quando foram usados apoios visuais. É um estudo pequeno, mas ilustra bem o efeito na prática.
Vale ser transparente: não encontramos estudos científicos que avaliem o quadro primeiro e depois isoladamente. As evidências vêm do conjunto dos apoios visuais e das intervenções antecedentes, que estão entre as 28 práticas baseadas em evidências do NCAEP.
Como usar o quadro primeiro e depois
1. Coloque no primeiro quadro a atividade menos preferida. No segundo, algo que a criança gosta ou que é naturalmente o próximo passo.
2. Mostre antes de começar. Apresente o quadro, aponte e diga só o essencial: primeiro leitura, depois parque.
3. Cumpra o combinado. Se o quadro diz que depois vem o parque, o parque precisa acontecer. A confiança no quadro depende disso.
4. Avise quando estiver acabando. Um aviso visual ou um temporizador ajuda a criança a se preparar para a troca.
5. Evolua para a rotina completa. Quando a criança dominar dois passos, vá aumentando para três ou quatro, até chegar à rotina visual do dia.
Dica da sala de aula: Use o quadro também para atividades curtas e agradáveis, não só para as difíceis. Assim ele não vira sinal de algo ruim e a criança passa a confiar nele.
Material pronto para imprimir: O Quadro primeiro, depois vem pronto para imprimir, com cartões das atividades mais comuns da escola e espaço para as suas. Conheça: Quadro "primeiro, depois"
Conclusão
O quadro primeiro e depois é uma porta de entrada para o uso de apoios visuais. Ele exige pouco material, cabe em qualquer rotina e ajuda a criança a atravessar as trocas de atividade com menos sofrimento. O segredo está na consistência: mostrar antes, cumprir o combinado e evoluir aos poucos para a rotina completa.
Quer receber mais ideias como esta? Baixe grátis a Rotina visual da manhã e receba os novos artigos no seu e-mail.
Perguntas frequentes
A partir de que idade dá para usar?
O material de referência do AFIRM descreve o uso de apoios visuais desde a primeira infância. Na prática, o quadro funciona bem a partir do momento em que a criança reconhece figuras.
E se a criança não quiser fazer a primeira atividade?
Reduza a primeira atividade para algo curto e possível, e aumente aos poucos. O objetivo inicial é a criança viver a experiência de que o combinado se cumpre.
Referências
- Sam, A., & AFIRM Team (2024). Antecedent-Based Interventions: Brief Packet. FPG Child Development Institute, University of North Carolina. https://afirm.fpg.unc.edu/wp-content/uploads/Antecedent-Based-Interventions-Brief-Packet-Sam-AFIRM-Team-Updated-2024.pdf
- Sam, A., & AFIRM Team. Visual Supports: Brief Packet. FPG Child Development Institute, University of North Carolina. https://afirm.fpg.unc.edu/wp-content/uploads/Visual-Supports-Brief-Packet.pdf
- Dettmer, S., Simpson, R. L., Myles, B. S., & Ganz, J. B. (2000). The Use of Visual Supports to Facilitate Transitions of Students with Autism. Focus on Autism and Other Developmental Disabilities, 15(3), 163-169. https://eric.ed.gov/?id=EJ614699
- Hume, K. et al. (2021). Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism: Third Generation Review. Journal of Autism and Developmental Disorders, 51, 4013-4032. https://doi.org/10.1007/s10803-020-04844-2
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de profissionais de saúde e de educação.
